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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Dias de uma música só


Ontem à noite fui ao show do The Cult, no Credicard Hall. De quem? Sim, eles ainda existem, alguém há de perguntar. À frente estão o vocalista Ian Astbury e o fazedor de riffs de guitarra Billy Duffy – é estimulante ver com que vontade, com que prazer esse cara empunha e domina sua Gibson Les Paul no palco.


Que eu me lembre, o Cult foi a primeira banda de rock com a qual tive alguma identificação. Não é nem nunca foi a preferida – tanto é que só tenho um LP deles, Sonic Temple, de 1989 – mas lembro que ali por 1986, mais ou menos, eu tocava minha guitarra imaginária toda vez que ouvia o riff de Rain no rádio.


O show do ano passado foi muito melhor, desta vez o som não estava lá essas coisas e Ian parecia cansado, gripado, sei lá. Mas assistir a um show dessas quase ex-bandas em atividade me faz lembrar do meu tempo de adolescente, das tardes perdidas batendo papo na porta da casa do Cebola, no Pari, do tempo em que nossas maiores preocupações eram saber se passaríamos de ano na escola e se “aquela mina” finalmente iria dar bola para a gente.


É ter sempre mais uma oportunidade de tocar guitarra ou bateria no ar e não se sentir ridículo por isso, já que quase todos à sua volta estão fazendo o mesmo (roqueiros e metaleiros são mesmo muito ingênuos).


Como o show acabou por volta de meia noite e meia, eu e o Fabra, meu amigo que me acompanhou ao Credicard Hall, mais o Rodrigo e o Felipe Machado (jornalista e guitarrista do Viper, que escreveu um texto sobre a noite de ontem em seu blog, cujo link você vê aqui, a quem encontramos na saída, seguimos para o Filial, na Vila Madalena, para a saideira.


Apesar de lotado, conseguimos uma mesinha bem no meio do salão do bar. E logo vimos que o Filial, àquela hora, estava uma festa. Numa mesa do fundo, acabava de chegar uns meninos de uma tal McFly, banda teen que havia acabado de tocar no Via Funchal lotado (juro que nunca tinha ouvido falar deles...).


À nossa frente, assim que o garçom trouxe o chope, vimos chegar o Sócrates, ele mesmo, o Doutor, o capitão de 82, o único corinthiano que, confesso, tenho alguma admiração. Veio com o grande Xico Sá e o Victor Birner.


Minutos depois, entram no bar o baixista Chris Wyse, o guitarrista Mike Dimkich e o baterista John Tempesta que, uma hora atrás estavam justamente no palco do Credicard Hall. Por um momento, voltamos a ser meninos mais uma vez: será que o Ian e o Billy vão aparecer também? Alguém na mesa ponderou que não, que a dupla, quase cinqüentona, já estaria no hotel.


Às 2h53 da manhã fechamos a conta. A turma do Doutor e os caras do Cult ficaram no bar, os meninos do McFly foram dormir cedo. Quando acordei esta manhã e vi o céu cinza, logo senti que a quinta-feira pós-Cult seria um tanto melancólica, um daqueles dias nos quais a gente tem vontade de ouvir uma música só. Hoje é dia de Rain.


Filial. Rua Fidalga, 254, Vila Madalena, tel. (11) 3813-9226.

Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

O Jobi, numa terça-feira gorda



Deve ter sido no Carnaval de 2002. Fomos apresentados na terça-feira gorda, num fim de tarde que deu praia – e samba.

Não pensem que fui mal-educado ao chegar daquele jeito à porta, já querendo um lugar no salão, de chinelo, bermuda, sunga ainda molhada e camiseta (o banho de mangueira no quiosque no Posto 9 mal serviu para tirar a areia do corpo).


Eu estava numa ansiedade só, afinal de contas acabava de me postar à porta do Jobi (apenas para constar, mais uma vez é eleito o melhor boteco da cidade, segundo o júri de Veja Rio – Comer & Beber 2008/2009). Teria a honra de ser atendido pelo Paiva (o garçom entre os garçons), iria provar os rissoles de camarão, as empadinhas, o chope e, de quebra, dar um tempo, simplesmente um tempo antes de retomar a vida a partir da quarta-feira de cinzas.


Duas ou três horas ali dentro, em meio à algazarra com a turma (ei Tramonta! Ei Alê! Lembram-se do desafio repentista?) e dezenas de copos de chope, empadinhas e rissoles de camarão depois, minha turma se preparava para pedir a conta quando percebeu que uma batucada que vinha lá do fim da rua. Segundo o Jardel, que muito bem nos atendeu (o Paiva estava de folga ou já tinha encerrado o expediente, não me lembro bem), era o “Empurra que Pega”, que vinha trazendo gente Leblon adentro, no que seria a saideira daquele Carnaval que teve até tanque do Exército na rua – não, não era nenhum carro alegórico.


O fato é que de lá para cá, toda vez que vou ao Rio de Janeiro arranjo um jeito de passar por ali para tomar nem que seja dois chopinhos, claro, um haverá de ser pouco, sempre. É como que um pedido de bênção, esse ritual, para desanuviar a cabeça e confortar o coração, já que nenhuma menina do Leblon jamais olhou pra mim.


Jobi. Rua Ataulfo de Paiva, 1166, loja B, Leblon, tel. (21) 2274-0547.


PS: para saber quais são os vencedores da edição Comer & Beber de Veja Rio, que está nas bancas, visite www.vejario.com.br

Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Comer lángos não é fácil



Pense, leitor, no prato, no petisco, na fruta, no sanduíche, enfim, na coisa mais difícil que você já comeu (ou tentou comer) em toda a sua vida.


Terá sido, por exemplo, o exagerado sanduíche de mortadela do Hocca Bar, no Mercado Municipal de São Paulo? (Em mais de uma vez que me atrevi a encarar um desses, saí com as mãos lambrecadas de óleo e vi metade das fatias do embutido despencarem para fora das duas bandas do pão). Ou o cachorro-quente da esquina, em que o purê de batatas vive querendo fugir do empurra-empurra com a salsicha?


Já experimentou o caranguejo servido nas barracas de praia nordestinas? Da próxima vez que tiver a chance de ir a Fortaleza, por exemplo, prove uma caranguejada. Juntamente com a porção do crustáceo, você vai receber um martelinho de madeira. A questão a se colocar é a seguinte: valerá a pena ouvir aquela sinfonia de marteladas só para extrair alguns gramas de carne desses bichinhos que gostam de andar de lado?


Costumo me dar mal quando vou a um restaurante mais bacana e peço alguma receita elaborada com pescado. Torço para que o maître esqueça de trazer a faca de cortar peixe pois, como sou canhoto na hora da refeição, me atrapalho todo com esse negócio...


Mas nenhuma dessas experiências é tão angustiante quanto a tentativa de comer lángos (pronuncia-se langosh). Trata-se de uma comidinha muito popular nas ruas da Hungria. Lembra um pão frito, tem o tamanho de uma pizza brotinho, e é coberto com um indecifrável molho de salsicha, alho, tomate, cebola, páprica, pimentão e um monte de outros temperos e ervas.


Fui apresentado ao lángos no fantástico mercado de Budapeste. No mezanino dessa construção que lembra a paulistana Estação da Luz, com sua estrutura de metal, enfileiram-se boxes especializados em lángos.


O problema é que devido à espessura da massa e à quantidade de cobertura desse molho de salsicha, por mais que os músculos faciais do comensal sejam elásticos e que sua mandíbula seja enorme, tenha certeza que mais da metade do lángos vai parar no chão – sim, no chão, pois o máximo de apoio que você terá é um singelo guardanapo.


Tentei começar pelas beiradas, como ensinava a vó Leonor na hora da sopa, parti para uma aproximação por cima, para tentar absorver primeiro o molho mas, ainda assim, vi as rodelas de salsicha enlameadas despencarem sobre meu tênis. De modo que não consegui responder à pergunta: afinal, gostei desse negócio ou não?


Se alguém aí souber de alguma tática, por favor me avise. Quem sabe, da próxima vez eu possa ter uma relação mais cordial com o lángos.


Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008

Floripa do sul



Um ano atrás, na edição de 19 de setembro de 2007, Veja publicou uma reportagem sobre o estilo dos milionários, muitos deles paulistas, aliás, que vivem no condomínio de Jurerê Internacional. Nessa área, uma espécie de Miami brasileira surgida na parte norte de Florianópolis, vêem-se mansões espetaculares, todas com seus dois ou três carros importados estacionados na garagem. A partir da ponte Hercílio Luz ou do aeroporto, quem chega à capital catarinense e segue para essa região mais setentrional da ilha, se encanta pelo cenário que exibe vias urbanizadas, com prédios modernos de um lado e, do outro, a orla, com as manezinhas (ah, as manezinhas...) caminhando, se alongando ou correndo.

Pois no lado oposto da ilha, cerca de 30 quilômetros dali, há uma Floripa de ruas estreitas, cercada de casebres e ar interiorano por todos os lados. Mesmo na temporada, é possível encontrar certa dose de sossego por ali. Dois bairros emblemáticos desse pedaço que parece ter parado no tempo são Ribeirão da Ilha, famoso pelo cultivo de ostras, e Pântano do Sul. E é nesse finzinho de mundo que fica um dos bares mais bacanas da cidade, ao qual pude voltar na terça-feira passada, depois seis anos.

Conhecido em toda a cidade (o taxista que me buscou no aeroporto sabia, é claro, chegar lá antes que eu terminasse de dizer o nome do lugar), o Bar do Arante fica exatamente no fim da rua que dá acesso à praia de Pântano do Sul.Dependendo da hora que se chega até ele, é necessário ter de desviar dos barcos que os pescadores puxam para longe da areia, a fim de escapar da subida da maré.

As paredes e o teto do bar são revestidas por milhares de pedacinhos de papel, com mensagens deixadas pelos clientes – uma herança dos tempos em que os primeiros fregueses que acampavam na praia passavam por ali e deixavam recados para seus companheiros. O salão amadeirado, com janelas vedadas de frente para o mar verde-azulado, pelas quais é possível ver gaivotas brigando por um naco de uma carcaça de peixe, faz lembrar uma cabine de uma embarcação.

O cardápio traz um festival de opções com peixes e frutos do mar. A melhor coisa a fazer, para experimentar de tudo um pouco, é optar pela (longa) seqüência de frutos do mar, uma espécie de menu-degustação.

O banquete à beira-mar começa com anchova frita. Em seguida vêm, de uma vez, camarões no bafo, ao alho e óleo e a milanesa, iscas de peixe-espada, mariscos (na falta desse item, comi um pastel de camarão), casquinha de siri e ostra gratinada. Quando você pensa que acabou, chegam dois filés de peixe ao molho de camarão, com salada, pirão e arroz. Antes que o leitor pense que exagerei, digo que esta é a porção para uma pessoa, segundo o cardápio.

Mas duas pessoas ficam bem satisfeitas com tanta comida, bem feita, ainda mais quando souberem que terão de pagar 39 reais pelo pedido (19,50 para cada um).

Bar do Arante. Rua Abelardo Otacílio Gomes, 254, Pântano do Sul, Florianópolis, tel. (48) 3237-7022.

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Sem perder a ternura (e o tempero)



Enquanto a vida de nossos vizinhos bolivianos - para não dizer da de haitinos e cubanos, que nunca tiveram um instante sequer de sossego em sua história - segue cada vez mais difícil, o bar Exquisito!, no bairro da Consolação, a quatro quarteirões da Avenida Paulista, faz sua parte pela, digamos, integração latino-americana.


Um olhar atento sobre o renovado cardápio da casa, à qual voltei numa das frias noites da semana passada, depois de mais de ano, faz supor que, de uma só vez, ele poderia agradar ao paladar de todos o chefes de Estado e diplomatas participantes de uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) ou da tal União Sul-americana de Nações (Unasul), ativada para tentar levar um pouco de paz à Bolívia.


Delícias como o ceviche (pescada branca marinada à moda peruana; na foto), o bolinho caipira (uma receita surgida na região do Vale do Paraíba, no interior de São Paulo, que tem massa de milho e recheio de carne moída) e o chilli com carne (porção tipicamente mexicana que combina feijão com carne moída mais tortilha, guacamole e outros ingredientes) permanecem bem feitas no menu, agora ao lado de petiscos como a porção de lambari empanado e outras opções preparadas com peixes de água doce.


Entre as bebidas, além das gordas garrafas das uruguaias Norteña e Patrícia, há a cerveja argentina Quilmes, rótulos básicos de vinho (Miolo seleção, por exemplo) e uma boa variedade de destilados típicos. São exemplos as cachaças, o pisco (aguardente de uvas, original do Peru), o (sim, no masculino) tequila e o rum, que servem de base também para coquetéis.


Em tempos de conflitos políticos aparentemente insolúveis, faz bem tomar um traguinho num lugar como este para, ao menos, pensar com um pouco de boa vontade em nossas próprias questões existenciais.


Exquisito! Rua Bela Cintra, 532, Consolação, São Paulo, tel. (11) 5632-0101.

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

36 horas em Fortaleza




Nove anos depois de ter conhecido Fortaleza, retornei à cidade, desta vez para dar a largada nos trabalhos de apuração de Veja Fortaleza – O Melhor da Cidade 2008-2009. E entre a minha saída e meu retorno para casa, passaram-se 36 horas, das quais, descontando os deslocamentos e os tempos de vôo, de sono e de reuniões, sobraram-me umas cinco horas para explorar a capital cearense.


Passei rapidamente por uma exposição em cartaz no Centro Cultural Dragão do Mar e dali segui para o Mercado Municipal. Difícil esconder a decepção, pois eu esperava encontrar um oceano de botecos e boxes com comidinhas regionais. Na verdade, trata-se de um centro de artesanato, com uns quatro andares de lojinhas de rendas, tecidos e roupas. Ainda assim, consegui comprar um pacote de castanha de caju (1 quilo por R$ 12,00, ou o equivalente a um terço do que se paga em São Paulo...) e quase deixei 200 reais por uma pasta de couro de jumento.


Na manhã de sábado, a poucas horas de voltar para casa, fui dar um mergulho no mar verde da praia do Futuro. Para chegar à areia, tive de passar pela mais famosa barraca de praia local, a Crocobeach.


Barraca de praia é um modo simplista de descrever aquele, digamos, estabelecimento. O acesso se dá por um jardim com coqueiros, bem conservado. Tive a sensação de desembarcar na Ilha da Fantasia. Em vez do grande Tatoo (quem se lembra?), na entrada há um boneco de um crocodilo gigante, a mascote da casa. Logo à frente vêem-se a lojinha, o cyber-café e os banheiros. À esquerda ficam as piscinas infantis, com escorregadores, e à direita, no que pude ver, um palco e os salões do restaurante, que tem até adega climatizada para os vinhos.


Já na areia ficam os quiosques ao lado dos quais os clientes estendem espreguiçadeiras, cadeiras de praia e uma espécie de almofadão, ideal para uma soneca. Em uma tenda, massagistas desestressam os turistas. Depois de passar por tudo isso, aí sim, você vê o mar. Não é o tipo de lazer de praia com que me identifico mas, devo dizer, a infra-estrutura é impressionante, perfeita para quem espera certa dose de mordomia, ainda que sob aquele calorão de 34, 35 graus.


Depois do mergulho, voltei para o hotel e antes de baixar no aeroporto, fiz um pit-stop no Colher de Pau, melhor restaurante de cozinha brasileira da cidade, segundo o júri da edição passada de Veja Fortaleza. Eu esperava encontrar um lugar arrumadinho, ao estilo da filial paulistana. Mas, para a minha sorte, o que vi foi uma casa com cara e alma botequeira. Na verdade, duas casas, uma de cada lado da rua.


Acomodei-me no quintal da que me pareceu a parte mais bacana, sob a sombra de uma mangueira. Nas mesas vizinhas, grupos de amigos falavam alto, uma turminha de garotas não parava de falar de seus namorados ausentes (para a tristeza dos tais falastrões) e o descompromisso que só as tardes de sábado têm marcava o lugar. Em uma hora, consegui tomar uma caipirinha, uma cerveja gelada e acabei com um prato de carne-de-sol com paçoca, baião-de-dois e banana assada. Satisfeito, dispensei o serviço de bordo no vôo de volta. Em São Paulo, 17 graus.


Colher de Pau. Rua Frederico Borges, 206, Varjota, Fortaleza, tel. (85) 3267-3773.


Crocobeach. Avenida Zezé Diogo, 3125, Praia do Futuro, Fortaleza, tel. (85) 3265-6667.



Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Dunga, o povo está zangado!


Não é que eu estivesse esperando gols de bicicleta, pedaladas, chapéus, toques de letra e olés. Mas depois da vitória convincente do time do Dunga contra o Chile, quem poderia imaginar que o jogo de ontem, no Rio de Janeiro, contra a lanterna Bolívia, terminaria no zero a zero?


Sou da opinião de que o torcedor reveria receber o dinheiro do ingresso de volta em partidas que terminem com esse placar. O problema é que se uma lei como essa valesse para o jogo de ontem, sequer conseguiria ser cumprida, já que graças ao fiasco da venda de bilhetes, os vizinhos do estádio do Engenhão foram agraciados pela CBF com entradas de graça, segundo reportagem de hoje no Estadão. Ainda assim, só 32 000 lugares estavam ocupados.


Mas as vaias que esses 32 000 deram à Seleção, tenho certeza, estenderam-se a todas as salas e bares que transmitiram o empate. Foi assim ao menos no Salve Jorge, na Vila Madalena, bar no qual assisti à partida.


Neste que é um dos mais festivos e barulhentos bares da região, todas as mesas estavam atentas à telinha. A cada passe errado, a cada furada, a cada bola que Ronaldinho e Cia. perdiam as pessoas se remexiam na cadeira, xingavam, balançavam a cabeça.


Na metade do segundo tempo eu já estava dando muito menos atenção à TV do que à minha cerveja e à porção de bolinhos de lingüiça moída com queijo. Crocantes por fora e com recheio bem úmido, essas bolinhas são daquelas que fazem com que a gente não reclame de passar uma hora do dia seguinte na academia ou na piscina. Numa noite como a de ontem, teve ainda o efeito colateral de um calmante.


Salve Jorge. Rua Aspicuelta, 544, Vila Madalena, (11) 3815-0705.

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Cadê o balcão que estava aqui?





Antes que a Rua Joaquim Távora se transformasse no principal corredor boêmio-gastronômico da Vila Mariana, o Barxaréu já estava ali, de portas abertas, na esquina com a Rua Rio Grande.


Em meio a edifícios residenciais de vinte e tantos andares, habitados por paulistanos de classe média-alta, e quase colado ao prédio da pós-graduação da ESPM, era o endereço mais simplório da vizinhança.


A maior parte de suas mesinhas ficava espalhada pela calçada porque, além de a área externa ser mais agradável, lá dentro havia um balcão de madeira sobre o qual repousava uma boa dúzia de potes de vidro com conservas muito bem-temperadas. Havia um para o picles, outro para o queijo, sem falar no daquelas deliciosas batatas-bolinhas curtidas no azeite com pimenta.


Esse balcão cumpria dupla função: como em todo boteco que se preze, era ponto de encontro, mais, de entrosamento. Era possível chegar sozinho, pedir uma cerveja e se ninguém viesse puxar papo com você, o anfitrião, Paulinho Meirelles, tratava de contar uma piada – e olha que o sujeito conhecia umas boas... Além disso, o balcão era o alívio imediato a quem chegasse com fome ao bar. Enquanto esperava pelos sequíssimos bolinhos de abóbora com carne-seca, o freguês enganava o estômago com as tais conservas.


Pois voltei ao Barxaréu, depois de uns dois anos, no fim da tarde de domingo. Soube que o Meirelles não está mais lá. E vi, e lamentei, que no lugar do velho balcão havia... o nada. Para acomodar mais três ou quatro mesinhas, o balcão se foi, as batatinhas, os picles também. (Ao menos chegaram ao cardápio o delicioso escondidinho e os pasteizinhos de gorgonzola com camarão.)


Não sou contra reformas ou recauchutagens mas não me conformo com o tipo de transformação que rouba um punhado da alma de um lugar. Lamento que isso aconteça cada vez mais com restaurantes, com estádios de futebol, com a rua em que morávamos, com as praças.


E quando não reconheço mais um dos meus botecos preferidos, então, só me restam, mesmo, as mesinhas na calçada.


Barxaréu. Rua Joaquim Távora, 1150, Vila Mariana, tel. (11) 5539-2444.

Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Pamplona, Zurich, São Paulo

Nunca desci a Rua Augusta a 120 por hora, mas na ladeira que é a Rua Pamplona, no trecho entre a Paulista e a Estados Unidos, já devo ter passado dos 30 algumas vezes, a bordo da minha velha Caloi de 18 marchas que, aliás, está precisando de uma boa revisão de câmbio.


Lembro-me como achava divertido ir com meus pais ao Eldorado da Pamplona para fazer “a compra do mês”. Eu tinha uns 4 ou 5 anos e, antes de encher o carrinho com biscoitos de leite Nestlé, Cebolitos e Danoninhos, fazia uma parada obrigatória no restaurante do hipermercado – acho que se chamava Zum Zum – para jantar o de sempre: filé com fritas. Para beber, Fanta Limão.


A Pamplona é uma das minhas ruas preferidas na cidade. Sempre achei chique essa palavra. Passei a gostar ainda mais de ouvir e pronunciar Pam-plo-na, assim, devagar, quando cresci e descobri que esse era o nome de uma cidade espanhola – ao menos pela TV, assistimos todo ano as célebres disparadas dos touros pelas ruas da cidade, durante a festa de São Firmino.


Mas a Pamplona ficou fora de moda. O Eldorado não existe mais, virou Carrefour, e nos últimos anos nenhuma atração gastronômica surgiu no pedaço. Restam restaurantes daquele tempo, que ainda estão ali, firmes e fortes. Como o Alfama dos Marinheiros, com o fado de quinta a sábado e seus garçons-popeyes servindo enormes porções de bacalhau. Ou a Camelo que, além de preparar deliciosas pizzas de massa fina, frita o melhor frango à passarinho de São Paulo. E a Trattoria do Sargento, com sua ácida sardela, suas filas dominicais e paredes cobertas por fotografias esmaecidas de fregueses ilustres, como Tarcísio Meira, Glória Menezes e Pelé.


Tem ainda um bar, certamente mais jovem, localizado na esquina da Pamplona com a Lorena. Chama-se Zurich Beer e, que me lembre, jamais esteve em evidência nos roteiros de revista ou de jornal. É um daqueles bares esquecidos que, entra ano e sai ano, continua a atender a clientela de sempre, que chega para instalar-se na varanda a fim de fazer uma horinha.


A happy hour fica mais gostosa em companhia dos bem-recheados pasteizinhos de carne e de queijo, além de uma caipirinha. O chope nunca foi dos melhores, mas a cerveja tem bom tratamento na casa. Sete ou oito anos atrás, quando não havia a fartura de rótulos como hoje, suas geladeiras já guardavam garrafas de Original, Pilsen Extra e outros da linha Antarctica.


Segunda-feira passada passei por lá. A caipirinha, por um momento, teve sabor de Fanta limão.


Zurich Beer. Rua Pamplona, 1551, loja 4, Jardim Paulista, tel. (11) 3885-0510.

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Sobre cerveja nos estádios da Alemanha

E não é que minha irmã de vez em quando lê este blog? E não é que ela faz o papel de ombudsman? Sobre a informação publicada no post "O Tricolor Alemão e o Homem-Cerveja", segundo a qual a venda de bebidas alcoólicas nos estádios alemães é proibida, ela me corrige., Diz que neles é possível, sim, comprar cerveja. Na verdade, o estádio do St. Pauli é um dos poucos em que se pode levar o copo para a arquibancada. Envei um e-mail ao comentarista de futebol Gerd Wenzel, da ESPN Brasil, que prontamente respondeu ao blog:

"Caro Miguel,

provavelmente tenha havido uma falha na comunicação. Fato é que na Alemanha, uma das atrações dos estádios em geral são os bares e quiosques espalhados pelas dependências das arenas onde o consumo de cerveja e bratwurst (nota do blog: salsichão) é exaustivo. Provavelmente ela tenha se referido ao consumo de cerveja nas arquibancadas - aí, de fato, há restrições em alguns estádios.

Acontece que no intervalo das partidas, a torcida vai para os bares/quiosques, geralmente localizados nos anéis externos das dependências e enche o 'tanque'."