Todos os dias, a simpática e sorridente Maria Laura Correia recebe, em sua loja-ateliê em Santa Cecília, dezenas de religiosos em busca de objetos de decoração e trajes litúrgicos. Desde maio de 2006, no entanto, Maria Laura enfrenta uma rotina especial. Responsável pela criação e produção das roupas que o papa usará em sua passagem por São Paulo, a estilista coordena uma equipe de doze pessoas que trabalham a todo vapor para deixar tudo pronto até abril. A visita acontece em maio.
MARIA LAURA CORREIA tem 68 anos de idade e é apaixonada por bordados. "Quando criança, em vez de brincar, bordava", lembra. Nascida em Lisboa, a estilista mora no Brasil desde os 21 anos e soma mais de trinta anos de experiência em roupas sacras. Formada em química industrial e marketing, deixou a carreira para dedicar-se à história da arte, arte sacra e aos significados por trás dos rituais da Igreja. Aprofundou os estudos na Itália e, no Peru, aprendeu restauração. É dona de um ateliê e de uma loja, a D&A Decorações e Artesanato Litúrgico, ambas no mesmo endereço, em Santa Cecília.
O CONVITE para fazer os trajes de Bento XVI, e dos 300 bispos que participarão da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e Caribe (Celam), veio em abril de 2006. Maria Laura foi procurada pelo arcebispo de Aparecida do Norte, Raymundo Damasceno, e pelo abade Mathias Tolentino Braga, autoridade máxima da comunidade beneditina em São Paulo. Eles queriam fazer uma homenagem ao papa. Não é a primeira vez que Maria Laura costura para um pontífice. Em 1980, quando João Paulo II veio ao Brasil, ela fez toalhas e alfaias (enfeites utilizados em cerimônias litúrgicas).
NO ATELIÊ, doze pessoas, dez máquinas de costura e quatro de bordado trabalham oito horas por dia para dar conta das peças da visita do papa. Os tecidos estão sendo comprados com dinheiro de doação de fiéis – Maria Laura não vai cobrar por esse trabalho.
AS ROUPAS DO PAPA devem ficar prontas em abril. Maria Laura aguarda a chegada de tecidos da Índia para começar a costurar a indumentária completa. Serão quatro opções de roupas para Bento XVI: duas para Aparecida do Norte e outras duas para a missa na igreja do Mosteiro de São Bento.
AS RECOMENDAÇÕES DO VATICANO para a confecção das peças foram feitas pelo monsenhor Piero Marini, encarregado do cerimonial do papa, e incluem desde o tipo de tecido aos símbolos presentes nos trajes. As roupas devem ser leves, por causa do calor. Serão de seda natural, em um tom descrito como “dourado envelhecido”. “Quando estivemos em Roma, monsenhor Marini pediu que usássemos nas roupas do papa um símbolo de Nossa Senhora que não fosse nenhum dos habitualmente relacionados a ela, como a estrela, a coroa, o lírio e a rosa”, conta Maria Laura. O religioso preferiu não dar sugestões. A equipe brasileira escolheu a concha, que representa a Imaculada Conceição de Maria e o nascimento de Cristo.
PARA TIRAR AS MEDIDAS DE BENTO XVI, Maria Laura foi até o Vaticano. Não se encontrou com o papa, mas teve acesso à Sacristia Pontifícia, espaço onde estão todas as roupas e acessórios utilizados pelo papa: foi como se entrasse em seu guarda-roupa para observar as preferências, os tipos de bordados aplicados, os detalhes e, a partir daí, traçar seus esboços. As medidas propriamente foram baseadas nos trajes prontos.
NAS ROUPAS DOS BISPOS (muitas já estão prontas), há uma menção especial para os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, cujos livros são a principal fonte de informações sobre a vida de Jesus Cristo. Eles serão representados, respectivamente, por símbolos presentes nos trechos iniciais: o rosto de um homem, um leão, um touro e uma águia. Os números também têm um significado: cinco conchas representam as cinco chagas de Jesus, três conchas estão relacionadas com a Santíssima Trindade, e por aí vai. O bordado entrelaçado denota a unidade da Igreja. Outro detalhe: dentro das conchas e em volta do bordado da Virgem Maria foi colocada uma delicada rede. Ela remete ao instrumento que teria sido usado pelos pescadores que recolheram a estátua de Nossa Senhora Aparecida no rio Paraíba, na vila de Guaratinguetá, em São Paulo, no século XVIII.
A missão de Maria Laura e sua equipe, em números aproximados
Serão confecionadas...
... quatro casulas para o papa. A casula é uma espécie de manto usado sobre as roupas dos religiosos
... 300 mitras para os bispos. A mitra é um tipo de chapéu usado em solenidades pontificais
... 300 casulas e 300 estolas para os bispos
... 500 estolas para padres (esse número podem dobrar, mas a arquidiocese de Aparecida do Norte ainda não confirmou o pedido)
Fotos Joana Ricci
Serão utilizados...
... 2500 metros de brocado, tecido de seda com desenhos em relevo, com as estampas dos Evangelhos
... 20 metros de seda natural
... 2000 metros de cetim para mitras
Significados de alguns elementos
Conchas: símbolo encontrado para representar a Virgem Maria. Utilizado desde o início do cristianismo, ilustra a Imaculada Conceição de Maria e o nascimento de Jesus Cristo.
Pérolas: serão pregadas na roupa do pontífice. Concha e pérola, juntas, identificam a maternidade divina.
Rede: é uma referência à rede utilizada pelos pescadores que encontraram a imagem de Nossa Senhora Aparecida no rio Paraíba, no século XVIII.
Estrela: é uma orientação, representa a indicação de caminhos para os homens.